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A IMPORTÂNCIA DO TREINO DE FORÇA EM ALTA PERFORMANCE C/ MÁRIO SIMÕES

Com a evolução do estilo e métodos de treino dos atletas de alta competição, a importância da preparação e do treino de força em atletas profissionais tem sido um tema bastante discutido. Para analisar este tema, decidimos convidar um profissional à altura. O Mário Simões é especialista em preparação e treino de alta performance. O Mário não é apenas um atleta de sucesso, como também tem uma formação académica impressionante, com uma Licenciatura em Desporto e Educação Física e um mestrado em Treino de Alto Rendimento pela FADEUP.  Mario Simões é, sem dúvida, um dos melhores profissionais na área de treino de força em atletas profissionais, fundador do centro de Alto Rendimento THE PEAK onde prepara diversos atletas de diferentes modalidades. Qual é a importância e benefícios do treino de força para a performance dos atletas profissionais? - Podemos agrupar os benefícios em várias áreas. Do ponto de vista da performance, os estudos mostram que atletas mais fortes possuem melhor rendimento em tarefas como saltos verticais por exemplo; por outro lado sabemos que atletas mais fortes têm menor risco de lesão. O investimento nesta capacidade motora estará obviamente dependente da modalidade e das características/necessidades dos atletas. Quais são os desafios mais comuns que enfrenta ao treinar atletas profissionais em relação ao treino de força?- Com atletas profissionais, sobretudo nos desportos coletivos, a grande dificuldade é encaixar o treino da força/potência no calendário competitivo. Hoje os calendários são muito congestionados, com atletas de futebol por exemplo a jogarem 2x semana, o que coloca grandes desafios ao desenvolvimento desta capacidade ao longo da época desportiva. Como é que avalia a evolução do treino de força em atletas profissionais nos últimos anos?- A grande evolução está sobretudo na facilidade de monitorização do treino, graças à tecnologia disponível atualmente (a custos mais reduzidos), como plataformas de força, encoders para medir velocidade da barra, telemóveis com apps/câmaras que permitem avaliar inúmeros parâmetros cinemáticos e cinéticos, etc. Quando lemos os autores “clássicos” como Verkhoshansky, Bosco, Komi, Zatsiorsky percebemos que todas as novas “tendências” no treino já têm de facto décadas e a grande diferença é que hoje é muito mais fácil avaliar e monitorizar devido à tecnologia existente. Como é que a abordagem de treino de força varia entre diferentes desportos e posições em campo?- As diferentes modalidades apresentam diferentes exigências não apenas na força muscular mas em todas as outras capacidades motoras como a velocidade, endurance, etc. As exigências da modalidade ditam qual a importância das diferentes capacidades motoras para a performance. Se compararmos o futebol com o rugby facilmente percebemos que as necessidades de força máxima no rugby são superiores às do futebol, justificando um maior investimento nessa capacidade. Relativamente às diferentes posições, se pensarmos por exemplo no voleibol, o líbero (apenas tem tarefas defensivas) não tem as mesmas necessidades de força explosiva do que os atacantes. Se pensarmos no futebol, um jogador do meio campo vs extremo/lateral têm exigências locomotoras distintas, condicionado não apenas o treino da força mas de todas as capacidades, até porque elas estão interligadas (a melhoria da velocidade máxima está dependente da força reativa por exemplo).  Como é que avalia as diferenças de mentalidade em relação ao treino de força em diferentes países onde trabalha?- Hoje não existem grandes diferenças. O acesso à informação é universal. A grande diferença está sobretudo na possibilidade de trabalhar em conjunto com os clubes lá fora, o que em Portugal ainda não é uma realidade. Com alguns atletas que trabalho fora de Portugal, há troca de informação e cooperação com o departamento de performance do clube. Em Portugal é muito raro isso acontecer, mas será uma questão de tempo. Que conselhos você daria a jovens atletas que desejam melhorar a sua performance no desporto?- Em primeiro lugar, dediquem a maior parte do tempo àquilo que é mais importante, a modalidade (ex: futebol). Em segundo lugar, para além de serem jogadores é importante desenvolverem a mentalidade de atleta. Isto significa que um atleta não é apenas dedicar 1h por dia ao treino no clube, mas também controlar as outras 23h de modo a otimizar todos os fatores que influenciam a performance e a saúde (sono, nutrição…). Numa fase inicial o treino de força promove grandes benefícios para a saúde e performance dos atletas e por isso deve fazer parte da rotina (assim como as outras capacidades). Quais são os principais mitos associados à preparação física e ao treino de força?- Em idades mais jovens o principal mito diz respeito ao potencial efeito nefasto do treino da força no crescimento dos jovens, o que é obviamente falso. Atletas submetidos a treino de força em idades jovens, desde que sob supervisão adequada, melhoram a sua saúde (melhoria da densidade mineral óssea por exemplo) e performance, interferindo positivamente no seu desenvolvimento e reduzindo o risco de lesões.Em atletas mais avançados, normalmente é o mito de que o treino da força torna os atletas lentos. Os estudos mostram que em resposta ao treino da força máxima os atletas melhoram a sua velocidade. No entanto é fundamental atender a dois pontos. Em primeiro lugar estas melhorias são observáveis sobretudo em atletas de níveis competitivos mais baixos e/ou com pouca exposição ao treino de força. Em segundo lugar dependerá essencialmente da orientação do trabalho a realizar. É possível que um plano mal elaborado possa fazer com que o atleta tenha um pior desempenho na velocidade.

2023-04-05